Leonardo tinha razões para ser uma criança feliz. Foi esperado e amado muito antes de nascer,
quando seus pais ainda eram dois adolescentes apaixonados. Seus pais eram ricos, sempre
lhe deram o melhor, e ele foi cercado de amor por todos à sua volta, sempre. Mas era uma
criança diferente, pois apesar de tudo que lhe era dedicado, ele tinha uma alma impura. Sentia
ódio das outras pessoas. Aprendeu cedo que podia se safar de qualquer coisa com uma
mentira bem elaborada, e por isso, aos olhos de todos, era um verdadeiro anjo.
Quando Leonardo tinha sete anos, aconteceu algo que pareceu, aos olhos de todos, uma
fatalidade. Um dos vizinhos tinha um filho que estava completando naquele dia, a mesma
idade de Leonardo, e a família do garoto estava organizando uma grande festa para comemorar
o acontecimento. Leonardo sentiu inveja do garoto e planejou algo horrivel. Convidou o
garoto à sua casa, com o pretexto de mostrar uma coisa interessante na sacada do terceiro
andar, onde ficava o quarto do mesmo. Minutos depois ouviu-se um grito desesperado lá de
baixo e a notícia : o garoto estava morto, desfigurado, metros abaixo. Encontraram Leonardo
sentado em um canto chorando, com a cabeça baixa, escondida entre as pernas. Tinha um
corte no braço direito, por onde escorria sangue e disse à todos, chorando, que se cortou ao
tentar impedir que o amigo caísse.
Junto com as falsas lágrimas e a expressao arrasada, a alma de Leonardo sorria feliz.
Infelizmente para ele, nada pode ser complemente oculto, e os olhos que presenciaram seu
crime tinham mais maldade que os seus. Se a testemunha tivesse uma alma, ela estaria
sorrindo mais que a de Leonardo.
No dia seguinte seria enterrado o corpo do garoto. Todos os vizinhos , incluindo o próprio
Leonardo estavam presentes. O sorriso maldoso e quase imperceptível ainda estava lá, mas
esse seria seu último sorriso. O garoto resolveu passear sozinho pelo cemitério, e ao
encontrar um coveiro, resolveu importuná-lo, mas foi ignorado pelo mesmo. Aquilo irritou
Leonardo, e ele chutou uma lápide. O coveiro olhou nos olhos dele e disse gentilmente :
- Nao devia fazer isso garoto, profanar um lugar de paz e descanso.
Como se o coveiro nada tivesse dito, Leonardo chutou a lápide mais uma vez. Naquele
momento, Leonardo sentiu medo pela primeira vez. Os olhos do coveiro giraram nas órbitas e
ele disse disse como uma voz arrastada :
- Você... Posso ver a sua alma e ela é suja. Você sempre teve tudo, mas nunca deu valor a
nada. Teve amor... Vejo que nem todo o amor do mundo poderia salvar uma alma como a sua.
Esse foi seu ultimo ato de maldade. Ah sim, sim... A hora da justa recompensa está próxima...
Leonardo ficou paralisado por varias horas, até q foi encontrado pelo pai, que o fez voltar a sí.
Já era noite, o coveiro nao estava mais lá. Leonardo foi levado para casa e instruido a
descansar. Porém um pesadelo impediu seu descanso. Ele estava num lugar horrível, onde
todos eram infelizes. Demônios andavam entre as pessoas e riam da infelicidade delas, mas só
Leonardo podia vê-los, e eles o tempo todo olhavam de volta e sorriam para ele. Um ser
encapuzado, que andava à sua frente parou, virou-se, e disse :
- Esse é seu novo lar. Acostume-se, pois vai ficar aqui um longo tempo.
Leonardo apavorado respondeu :
- Mas eu nao quero ficar aqui, eu nao posso.
- Ah sim, voce pode sim. Voce conquistou esse direito. Agora aceite sua recompensa.
- É só um sonho, nao pode ser outra coisa.
Dizia Leonardo. O ser encapuzado descobriu o rosto. Leonardo o reconheceu de imediato, era
o coveiro
- Certamente meu caro, é um sonho, e você têm a opção de acordar. Mas nao se esqueça,
voce vai voltar aqui todas as noites, até estar pronto pra ficar para sempre no seu novo lar.
Leonardo acordou assustado, seus gritos podiam ser ouvidos por toda casa. Preocupados com
o que pensaram ser um trauma por ter presenciado a morte do garoto vizinho, os pais de
Leonardo chamaram um médico, que depois de um breve exame , receitou calmantes para o
garoto dormir aquela noite. Leonardo dormiu e foi novamente para aquele mundo, onde os
únicos que podiam vê-lo aguardavam felizes por sua volta, dessa vez com espetos nas maos.
O garoto foi torturado, espetado constantemente. Ele gritava de dor e pavor.
- Nos vemos amanha.
Disse o coveiro sorrindo para o garoto.
E durante meses foi assim. Os pais o sedavam contra a sua vontada, para que pudesse
dormir, e sempre que dormia revivia o pesadelo. E cada castigo era mais torturante que o
outro, e mesmo em sonho, a dor era real . Leonardo já nao aguentava mais. Sua alma, antes
impura era agora de um garoto assustado
- Está chegando a hora meu caro, logo será recebido aqui. Veja como estamos contentes.
Disse o coveiro. Todos riam enquanto o garoto chorava e pedia perdão.
- Esse nao é um lugar de perdao, e sim de punição, e seu dia está chegando, voce só precisa
dormir mais uma vez.
Leonardo acordou. Mas nao agitado como nas outras vezes. Dessa vez estava calmo, e
ninguém na casa percebeu que ele havia despertado. Era madrugada. Leonardo aproveitou a
chance, levantou em silencio, e substituiu as pilulas calmantes por outras de efeito contrario.
Os pais achavam que o filho estava realmente louco, e os médicos haviam perdido a esperança
de que se recuperaria algum dia. Mesmo com todo o tratamento ao qual era submetido, o
garoto insistia que tudo o que passava era real. O que podiam fazer era cuidar para que ele
tivesse conforto e boas noites de sono. Claro que todos, menos Leonardo, achavam isso. Mas
ninguém o ouvia.
Leonardo entao percebeu que estava sozinho nos dois mundos. Porém estava perturbado
demais para perceber que seria impossível, mas decidiu que nao dormiria mais. Durante três
dias aceitou de bom grado os remédios, pois sabia que o manteriam acordado. Ao terceiro dia
de vigília as alucinacoes comecaram. Leonardo andava pela casa em um tipo de sono
acordado. Os demonios riam e brincavam à sua volta. Ele nao sentia mais medo. Caminhou em
direcao à sacada do terceiro andar. O coveiro se encontrava à porta.
- Chegou o grande dia meu caro. Vim buscá-lo pessoalmente.
Leonardo foi em direção ao para-peito .
- Isso aí, você está pronto. É só um salto, vc consegue.
Leonardo entao saltou. Foi fácil, de fato. Encontrara o fim quase da mesma forma que o filho
dos vizinhos anos atras. A única diferenca foi o destino da alma de cada um. O descanso
eterno para um, a danação eterna para outro. Os pais de Leonardo ficaram arrasados com o
suicídio do filho. Mas para eles, o filho finalmente havia encontrado o descanso.
medo
domingo, 28 de julho de 2013
A recompensa justa
3:33
3:31
Ouço de longe o som de passos ecoando pelos corredores da minha mansão. O som é
distante, mas sim, posso ouví-lo
O rítmo das passadas é acelerado e constante.
3:32
A porta do aposento se abre.
- Meu senhor, a senhorita vanessa o aguarda na sala de estar.
Diz o meu fiel servo.
- Desço num minuto. Sirva à ela um bom vinho.
- Sim meu senhor.
Meu fiel servo olha para o esquife de cristal à minha frente.
- Senhor, se me permite comparar, ela nao é de longe tao bonita quanto a senhorita Maria.
- Ninguém é, meu caro Tobias, ninguém nunca será.
Depois de olhá-la com um sorriso terno, meu fiel servo se retira, e eu fico sozinho a
contemplar a beleza magnífica da mulher no esquife. Não como ela está agora, com sua
aparência mortal, embora possua uma beleza estonteante, capaz de enlouquecer o mais
sensato dos homens. Os olhos que a vêem sao imortais, e a vêem em sua forma imortal. Como
ela deveria ser agora. A pele palida como giz, e de aparência delicada , contrasta com os
cabelos escuros , bonitos como a noite. Nao. Mais bonitos, como as trevas durante um
eclipse. Os lábios perfeitos mostram um eterno sorriso, que só seria mais lindo combinado
com a expressao doce e ao mesmo tempo sombria que ela teria no olhar, se ainda pudesse
abrir os olhos. O corpo dela é simplesmente a perdição. Um rei merece uma rainha à sua
altura, mas ela certamente iria mais além. Seríamos os donos da noite, e ela seria a dona da
minha vida, se é que tenho uma. Seríamos eternos, como o que eu sinto por ela. Sim,
vampiros podem sentir. Acredito que uma parte do nosso antigo ser fica presente depois da
conversao. Talvez tenha a ver com a necessidade de sangue. Humanos e vampiros necessitam
de alimentos, e esse é o eterno elo entre o mortal e o imortal. Mas o imortal sempre vai
subjulgar o fraco mortal.
Por isso Maria está assim, porque o mortal fraco que ainda existe em mim nao pôde conter o
imortal sedento por sangue. E está aqui para me lembrar da noite mais perfeita da minha vida,
e também da minha pós-vida.
Nossos corpos nus e entrelaçados, o frio e o calor em perfeita harmonia. Era um momento
perfeito. A alma pura dela trouxe a minha própria alma por um momento das profundezas. Por
um momento fomos um só, luz e trevas, vida e morte em perfeita harmonia. Mas a harmonia foi
quebrada quando a luz dela venceu as trevas em mim e senti vida em mim de novo. O vampiro
sanguinário sentiu temor, e ordenou ao humano fraco, falando em sua cabeça " vamos, tome-a
para si, ela é sua " . Continuei a sentir vida em mim, mas agora de forma diferente, e percebi
tarde demais que estava drenando a vida de Maria.
Forcei o humano fraco a tomar novamente o controle, apenas para ver a vida lentamente se
extinguir de Maria. Já era inútil parar. Seu corpo esfriava e com ele a minha alegria. A visão do
seu corpo estendido em meus braços, o gosto de seu sangue na minha boca, a sensação de
sua vida correndo agora pelo meu corpo sempre será um tormento, tanto para o humano
quanto para o vampiro.
3.33
Escuto as palavras do meu fiel servo novamente em minha cabeça. " Senhor, se me permite
comparar, ela nao é de longe tao bonita quanto a senhorita maria " . Olho mais uma vez para
maria e respondo entao, em voz baixa para mim mesmo :
- ninguém é, e nem nunca será...